I have been an amateur musician and singer for a long time. I first learned how to play the classical guitar and, more recently, the 12 string Portuguese guitar. Before becoming a full time academic, I thought of having a career in music. Over the years, I have the great fortune of collaborating with very talented musicians and composers.
I have written for João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Carlos Bica, Ricardo Gordo, and others. These songs have come to life in the voices of Cristina Branco, Filipa Pais, Paula Oliveira, and Valéria Carvalho.
O Palhaço e o Ministro

Artists: Cristina Branco
Lyrics: Miguel Farias
O Palhaço e o Ministro
Do que espanta um surdo-mudo
dos jardins além do muro
venho aqui pra vos contar
Dentro de uma catarata
num palácio de ouro e prata
ouço alguém a soluçar
É um reizinho tão tristonho
um menino com maus sonhos
sem ninguém para o aconchegar
A sua mãe caiu a um poço
e o rei-pai num calabouço
ninguém os pôde salvar
É agora o ministro
tão sisudo e bem sinistro
que no reino vai mandar
O pequeno rei só chora
junta as mãos e ao céu implora
para um raio o fulminar
Quem ajuda o nosso rei?
quem ajuda o nosso rei?
nunca mais foi visto a rir
diz o povo a chorar
Quem nos pode acudir?
Salvem o nosso rei!
Chegam magos, alquimistas
mais médicos e dentistas
a ver se o tentam curar
Mas o rei não tuge ou muge
está verdinho como musgo
no seu leito a vegetar
O ministro furibundo
manda arautos pelo mundo
pra uma cura encontrar
E com a mão na guilhotina
diz que vai cortar a espinha
àquele que fracassar
Muitos sábios vão chegando
e as cabeças vão rolando
até um homem falar
De pêlo e nariz postiço
anuncia ao ministro:
O palhaço pula e dança
estica, fura e explode a pança
faz mil truques de encantar
Ele transforma o vinho em água
faz esparguete de uma tábua
e flutua pelo ar
Mas o rei quieto e mudo
amarelo e macambúzio
mal parece existir
E o palhaço sem maneiras
tira a penca e cabeleiras
pra o ministro as vestir
Eis que o grande carrancudo
com a penca e cabeludo
fica lindo de morrer
E o rei dá tal gargalhada
qual canhão ou trovoada
que o palácio faz tremer
Ele salvou o nosso rei!
ele salvou o nosso rei!
olhem só pra ele rir
diz o povo a aclamar
O palhaço é o seu vizir
Viva o nosso rei!
O ministro pró palhaço
diz: ó meu amigalhaço
não quer ser meu professor?
Sempre quis ser divertido
e farei de si grão-fino
se aceitar ser meu tutor
Mas o outro diz: amigo
da onça eu não preciso
nem do ouro que roubou
Ser palhaço é um castigo
não se ensina tal destino
a quem o rei-pai matou
— Talvez eu o possa curar.
O palhaço cura o rei!
o palhaço cura o rei!
diz a corte inteira a rir
diz o povo a chorar
Quem nos pode acudir?
Salvem o nosso rei!
E o ministro com o cacete
logo aponta o gasganete
com caretas de rancor
Num segundo a guilhotina
corta o palhaço em tiras
e o rei cai num estupor
Quem ajuda o nosso rei?
quem ajuda o nosso rei?
nunca mais foi visto a rir
diz o povo a chorar
Quem nos pode acudir?
Salvem o nosso rei!
O Lenço da Carolina
Artist: Cristina Branco
Lyrics: Miguel Farias
O Lenço da Carolina
Meu coração é feliz
porque muito lo amas
segue juntinho a ti
não importa a lonjura onde andas
Meu coração é um pardal
que à noitinha se queixa
borda um enxoval
da saudade tão grande que deixas
Carolina
leva este lenço
com cheirinho a alecrim
guarda-lo entre as sedas
e as flores secas de alfazema
Carolina não te percas
Meu coração é feliz
porque dele tens a chave
fundo como a raíz
é somente pra ti que ele se abre
Teu coração é só meu
e é lá dentro que eu moro
guarda-mo que eu guardo o teu
pois se um pára olha que o outro morre
Carolina
leva este lenço
com cheirinho a alecrim
bordei um mapa no linho
com um X sobre o nosso ninho
Carolina não te percas
Meu coração é feliz
porque tem a fineza
sabe enganar a tristeza
a costurar com firmeza
Meu coração é feliz
a decalcar mil safiras
e a cada agulha que enfia
eu sei que te achegas mais aqui
Carolina
leva este lenço
com cheirinho a alecrim
guarda-lo entre as sedas
e as flores secas de alfazema
Carolina
leva este lenço
com cheirinho a alecrim
bordei um mapa no linho
com um X sobre o nosso ninho
Carolina não te percas de mim
Longe do Sul
Artist: Cristina Branco
Lyrics: Miguel Farias
Longe do Sul
A I
Hoje não há palco
nem há barcos em chama
canta-se descalço
com os pés na lama.
Fora com as guitarras
range o baixo profano
paira um astronauta
por sobre o piano.
Entro na má hora
troco as cordas ao tempo
claro vejo agora
como a serpente.
Abro a flor à alma
(o teu rosto ainda é quente)
peço à noite um salmo
de voz contente.
Refrão
Longe do Sul
longe do Tejo é bem melhor o amor.
Perto de ti, beijos de cor (tão perto)
A II
Corto o pulso ao incêndio
estanco o braço do sol
basta-me o compasso
do rouxinol.
Canto o tempo aberto
(o teu corpo é uma espada)
largo-me ao incerto
e baixo a guarda.
B
O fado é outro
despiu o xaile, pôs-se a bailar.
Ai, o meu fado é louco.
O fado é espanto
desceu do céu, pôs-te a girar.
Ai, este fado é santo.
Refrão
Longe do Sul
longe do Tejo é bem melhor o amor.
Perto de ti, beijos de cor (tão perto).
Final
Estrela vem…
Vens por bem?
Leva este fado a Belém.
De Berlim
a Pequim
o fado dançar-se-á bem.
Estrela vem…
Vens do além?
Traz o menino a Belém.
De Pequim
a Berlim
o fado dançar-se-á tão bem.
A Laurindinha
Artist: Cristina Branco
Lyrics: Miguel Farias
A Laurindinha
Laurindinha já não sai
perdeu a voz, entristeceu
Rio acima nunca mais
nem arraiais lá em Viseu
Pela fresta aberta cai
o seu anel de dez rubis
Sem dinheiro olha o cais
põe-se a sonhar longínquos laranjais
Já ninguém faz canções
pró teu filho não chorar?
Laurindinha doba a lã,
guarda em baús seus enxovais
À noitinha no ecrã
rabisca amor em cem murais
As vizinhas p’lo São João
dizem que a não ouvem chorar
Terá lançado um balão
pra aliviar o peso à solidão?
Já ninguém faz canções
pró teu filho sossegar?
Laurindinha, minha mãe,
o sol raiou, não chores mais
Vê que a dor é como a lei
diz sim senhor e finge uns ais
Está o milho por colher
a filha só está por casar
Antes do país morrer
canta outra vez pra o Douro transbordar
Já ninguém faz canções
prá Laurindinha me embalar?
Petição do Farias
Artist: Cristina Branco
Lyrics: Miguel Farias
Petição do Farias
Olha esta cena
até dava pra ter pena
se não fora estar tão farto
de esperar para que o mundo se
refaça enquanto fico meio parvo
feito um animal na bicha
do emprego dos impostos do degredo
pró Brasil, Angola ou Cabo Verde
Isto é uma treta
quem nos pregou esta peta
trocar vinho e chá de tília
por xanax e prozac
ó sô doutor de família
faça-me um favor
assine aqui em baixo a petição
para os políticos
terem uma nova oportunidade
a bem da nação
Assine esta petição, sô doutor,
faça lá esse favor
para o governo e catedráticos
terem a oportunidade novíssima
de aprender a lavar chãos
Ai que desgraça
esta quase que tem graça
a minha noiva num placard
vestidinha de mil marcas
só me trata por você
só faz miminhos em inglês
depois vai pela socapa
fazer compras ao chinês
Ó querida, sweetie pie, assina esta
petição?
Agora atentem
tenho a minha avó doente
aos oitenta e sete anos
mexe mais que uma serpente
mas tem pedras na vesícula
faz um TAC um raio X
o sô doutor diz ‘não opero
é muito velha é quase o fim’
e receita-lhe analgésicos e passeios
pelo jardim
Assine esta petição, sô doutor,
faça lá esse favor
para o governo e catedráticos
terem a oportunidade novíssima
de aprender a lavar chãos.
E Se
Artist: Filipa Pais
Lyrics: Miguel Farias
E Se
E se for escorregar
Pelo sol até o tombar
E se o mar se escorrer
Pelo céu até se afundar
E se a luz romper a noite
E um boi voar
Se lua for onde eu morar
Daqui quero saltar
E se for num momento
Parar o tempo
Eu vou incendiar:
Irei ao coração de cada
Um atear
E se o amor anda a pôr
O mundo de pernas pró ar
E se alguém fora prender
Toda a dor só para brincar
E se o céu cair e da terra
Chover granizo doce
E se eu beber as estrelas
E as trincar
E se as flores se põem a cantar
Se os anjos vierem dançar
É aqui – eu já sei que estou viva –
Este é o meu lugar
Vou ficar
Quem Sonha Quem
Artist: Filipa Pais
Lyrics: Miguel Farias
Quem sonha quem
Quem do espanto se guarda
Quem não faz mal nem bem
Como um fogo molhado
É como um amor que não queima ninguém
Quem de noite se apaga?
Quem se esconde é de quem?
Rasguem-se os telhados
Caiam dos céus cem mil fadas
Que invadam casas
Vida se te apavora
Sombra que te detém
Morto andas, acorda
Vem, nem sonhas com o que eu te sonhei
Desçam naves do espaço
Saltem ninfas tritões
Bebamos à graça
Venham cantar cem mil fados
Que invadam as almas
Quem me espanta da guarda
Quem no mal só faz bem
Quem no fogo se molha
Ah, sonha-me alguém? quem sonha quem?
Cantem ninfas do espaço
Dancem naves, tritões
Salvem a desgraça
Venham beber cem mil fados
Que invadam as águas
Vem
Ingratidão
Artists: Ricardo Gordo, Valéria Carvalho
Lyrics: Miguel Farias
Ingratidão
Quando dizem que sou parva
que sou escrava das tuas mãos
e quando tocas guitarra
fico muda, mole e larva
do teu dom que é meu pão
Não lhes mostro a minha garra
minha alma sem ilusão
pois quando tocas guitarra
a caneta é uma espada
com que rasgo a solidão
Refrão
Estou-te grata pela ingratidão
pelos fados que ao serão
tu tocavas para outras
menos parvas menos loucas
que não têm coração
Se soubessem que sou outra
que te traio quando sais
em versos amo um outro
dou à luz um fado louco
que depois lanço do cais
Quase
Artists: Paula Oliveira, João Paulo
Lyrics: Miguel Farias
Quase
Quase tão cheio quase a transbordar
quase a temer o meu olhar
eu quase rio do seu quase transbordar
Quase tão forte quase a rebentar
quase a tremer com o meu tocar
eu quase rio do seu quase rebentar
Quase tão ferido quase que a chorar
quase que a pedir para se afundar
quase que o beijo quando está quase a chorar
Então
Artists: Paula Oliveira, João Paulo
Lyrics: Miguel Farias
Então
Quase cai não cai
quase chora e então?
Quem quase que faz
faz ou não?
Quase vai não vai
quase treme e então?
Quem quase me quer
quer ou não?
Quase sim ah sim?
Quase quase não e então?
Quem quase que sim
quase não.
Quase a ser não ser
quase quase e então?
Quem quase me diz
digo não.
Quase como diz?
Fique com o seu quase então
se é quase feliz
porque não?
Quase quase enfim
quando vive é quase então?
Se é quase infeliz
porque não?
Quase quase que vim
quase que vim em vão
quase quase é o fim
quase quase e então?
Quase quase é o fim
quase que vim em vão
quase quase que vim
quase e então?
O Exílio
Artist: João Paulo
Lyrics: Miguel Farias
O Exílio
Onde vou?
Sei lá onde vou.
O meu trilho é liso
a água me calçou.
É incerto se ando
para lá para cá
para apanhar o tempo
ou se é tudo um voltar atrás.
Onde estou?
Sei lá onde estou.
Esta noite a água
a terra apagou
mas um sopro
vem dar alento:
há braços que se abrem
e eu entro.
Volto àquela casa
onde a gente
nunca me deixou.
Onde sou?
Sei lá onde sou.
E o que quer que sou
é o que está a mais.
Com o silêncio em mim
morto, enfim
sopro aos ouvidos
dos anjos
notas finais.